Terça-feira, 21 de Março de 2006
Histórias de África - Afinal o malandro não era

O Dr. Pecegueiro teve o cuidado de me informar que na Secção Liceal do Cubal o ambiente era de generalizada indisciplina. O professor responsável, um padre, tinha muita dificuldade em se impor à rapaziada, que transformava as aulas em autênticas paródias. Os alunos soltavam animais nas aulas para intimidar os professores, saíam das salas durante os testes, para copiarem uns pelos outros. Havia um professor que era alvo da chacota da estudantada por se deslocar para a Secção numa bicicleta de pedal…com faróis de nevoeiro. Os resultados escolares eram muito fracos.

 

Impunha-se restabelecer a normalidade e o Reitor confiava que eu conseguisse elevar o nível do estabelecimento.

 

Nos primeiros contactos com os professores contaram-me cobras e lagartos de um aluno que se destacava pela sua indisciplina. Ele era o terror em pessoa. Todas as malandradas e patifarias teriam a sua marca, não só na Secção, mas também na cidade.

 

 Estava curioso por conhecer o rapaz. Sempre tive uma atracção especial pelos indisciplinados e irreverentes.

 

No dia da apresentação defini as regras do jogo e disse aos alunos, cerca de uma centena: “Bem, meus amigos, isto aqui vai ser muito simples. Vocês vão ter toda a liberdade, podem correr e saltar à vossa vontade. Mas lembrem-se que sobre as vossas cabeças vai começar a movimentar-se uma espada. Se levantarem demasiados as cabeças, a espada cortá-las-à implacavelmente”.

 

Os alunos entreolhavam-se com sorrisos irónicos. “Ora cá vem mais um para ser comido de cebolada”.

 

Quis saber quem era o Marta, o malandro-mor. Apresentou-se um rapaz espigadote, magrito, mas que não me pareceu preencher os arquétipos da malandragem. Fiquei intrigado. "Aquilo é que é o diabo em pessoa?"

 

Em casa pus-me a ler os trabalhos dos alunos, que a Odete, durante a minha ausência em Coimbra, lhes ordenara, e fiquei siderado. O Marta, o tal malandrão, escrevia muito bem e mostrava um tão acendrado carinho pela mãe, a quem dedicava palavras de elevado sentido poético, que não me contive e chamei a Odete aos berros: “Este tipo não pode ser o malandro que pintam”.

 

Depois soube que o pai dava porrada velha na mãe. Estava encontrada uma das possíveis explicações para a irreverência do rapaz.. Procurei manter com ele uma relação de amizade. Cheguei a defendê-lo em tribunal, por factos anteriores à minha chegada. Incluia-o nas equipas de andebol e de futebol de salão.Nunca me criou o mais pequeno problema disciplinar.

 

Apenas me zangava com ele nos jogos de andebol, quando teimava em rematar à baliza sem a mínima hipótese de fazer golo.

Tinha muito mais jeito para as miúdas.

 

 



publicado por alvaro às 18:36
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