Sexta-feira, 3 de Março de 2006
O Discurso – ou as polivalências do desporto
Tinha chegado ao Cubal há apenas há alguns dias (princípios de Novembro), quando me aparecem lá na Secção Liceal o director da Escola Comercial, o director do colégio da cidade, e um padre, que acumulava as funções de pároco da terra e professor na Escola Comercial. Vinham apresentar cumprimentos e fazer-me um convite: para ser o orador na sessão comemorativa da restauração da independência nacional, que os estabelecimentos de ensino da cidade iam organizar no dia 1 de Dezembro próximo. Fiquei enrascado com o convite. Tratava-se de uma sessão em que os discursos andavam invariavelmente à volta das peripécias históricas do reganho da independência do jugo castelhano em 1640 e da lição para o presente que era cerrar fileiras pela indivisibilidade da Pátria contra os grupos de terroristas, que a soldo do comunismo internacional, tentavam dividi-la. Ora eu não poderia fazer um discurso desses, porque seria ir contra as minhas convicções antifascistas e anti-colonialistas. Por outro lado, não poderia, na minha condição de representante de uma instituição de ensino, fazer um discurso, numa cerimónia oficial, de acordo com as minhas convicções políticas. Seria um desastre. Por isso fui recusando o convite. Que ainda mal tinha chegado. Que precisava de pôr em ordem a Secção. Que ainda não tinham chegado os meus livros. Que eram necessários para me documentar e apoiar na elaboração do discurso, etc., etc. Os meus interlocutores ouviam-me com muita atenção, mas não aceitavam nenhum dos meus argumentos. Era um discurso fácil e sabido (isso sabia eu…). Não eram precisos livros para nada. Era sempre um deles, o orador. As pessoas já estavam cansadas de os ouvir (não me custou nada acreditar que sim…). Agora que havia um colega novo na cidade, era boa altura para refrescar o discurso (se alguma vez o tema e o clima tropical o permitissem…). E também seria o momento adequado para fazer a minha apresentação à comunidade escolar e às autoridades da cidade. Não tinha saída: lá tinha de fazer o discurso, desse para onde desse. O suor caía-me em bica. Mas como estava muito calor, os meus interlocutores não puderam inferir daí o meu enrascanço. Então tive um lampejo e perguntei-lhes: Mas afinal qual é o tema? Fantástica resposta: fica da sua inteira escolha. E no dia 1 de Dezembro de 1972, perante largas centenas de alunos, professores, autoridades civis, militares e religiosas, quando era suposto falar da Pátria, dos Vasconcelos traidores, do Portugal do Minho a Timor, e do Angola é nossa, falei sobre a Juventude e o Desporto. No final fui muito cumprimentado. O director do colégio, com um sorriso que me pareceu cúmplice, comentou: muito original, muito original. O director da Escola Comercial, em Maio de 1974, após eu ter discursado numa sessão de apoio à Junta de Salvação Nacional, deu-me um abraço e disse-me: Ó Álvaro, agora compreendi tudo.


publicado por alvaro às 19:39
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1 comentário:
De Anónimo a 7 de Março de 2006 às 22:23
...eu sempre achei que o desporto e a juventude eram a panaceia para muitos males...
atitude de cidadania
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(mailto:ajm.pereira@mail.telepac.pt)


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