Terça-feira, 28 de Fevereiro de 2006
De Coimbra para o mato
A Odete, que conhecera em Coimbra no ano de brasa de 1969, e regressara a Angola após ter terminado o seu curso de secretariado, em 1971, não descansou enquanto não me convenceu a ir passar com ela umas férias a Benguela. A viagem era cara e eu, obviamente, não tinha dinheiro. Mas como ela prometera comparticipar no seu custo, programei a viagem para Agosto de 1972. Comecei a estudar cedo (habitualmente os “aplicados” começavam a estudar lá por Março /Abril, os “tradicionalistas” só abriam as sebentas depois da Queima, enquanto os “marrões” não faziam mais nada na vida…) para fazer o maior número possível de cadeiras na 1ª época de Junho/ Julho, pois pensava passar por lá muito tempo, fazendo a viagem de barco, por ser mais económica, salvo erro cerca de cinco contos (um professor liceal na altura ganhava à volta de quatro contos e oitocentos escudos). Arranjei uma série de expedientes para ir juntando uns cobres, chegando inclusive a vender bilhetes na candonga para o basquetebol, num jogo em que a Académica defrontava o F. Porto, onde pontificava então um extraordinário jogador, chamado Dale Dover, que arrastava multidões pelo seu virtuosismo e capacidade concretizadora. Abri uma conta nos Correios onde depositava todos os tostões que ia amealhando. Vivia em Coimbra, na República Trunfé Kopos, ao Penedo da Saudade, com grandes dificuldades económicas, apesar de todos os malabarismos que se faziam na gestão da República. Estava isento do pagamento de propinas, tinha uma bolsa de estudos dos Serviços Sociais da Universidade e recebia periodicamente uma reduzida mesada dos meus pais (Durante os cinco anos que estive em Coimbra deram-me cinquenta contos, que lhes devolvi quando terminei o curso e passei a ganhar dinheiro…). Já estava farto de pedir dinheiro aos meus pais, que faziam enormes sacrifícios para mo dar. Então decidi que no último ano do curso – o 5º ano – a partir de Outubro de 1972 – iria dar aulas, para me auto – sustentar, e acabaria o curso no regime de voluntário. Neste regime bastava ir à Faculdade fazer os exames, não era necessário frequentar as aulas. Dei conhecimento das minhas intenções à Odete que, de imediato, concordou com a ideia e me incentivou a concorrer para o Liceu de Benguela. Um namorado que se preze não deixaria de corresponder a uma tal sugestão e lá concorri, nunca pensando que tal acto iria mudar radicalmente as minhas perspectivas de vida (Para mim, Angola era “estrangeiro”, como fazia questão de afirmar, simbolicamente, lançando, em Coimbra, as minhas cartas para a Odete nos marcos dos Correios destinados à correspondência para o estrangeiro). A viagem iria ser feita de avião, um majestoso Jumbo de 410 lugares, promovida pela Agência Geral do Ultramar, onde me inscrevi, após anúncio nos jornais, com a patriótica missão de ir conhecer as maravilhas da política ultramarina portuguesa, juntamente com mais quatrocentas individualidades, civis militares e religiosas (no corredor do avião tropecei com uma individualidade que, em 1969, me acusara de insubordinar, com um levantamento de rancho, os alunos de um colégio do Porto, onde eu, durante trinta dias, exercera as funções de prefeito, uma espécie de polícia…). Foi o que se poderá chamar uma viagem à boleia do regime… No dia seguinte ao da chegada a Benguela, lá fomos ao Liceu falar com o Reitor. Deparou-se-me um homem fascinante, culto, exímio conversador. Conversámos durante algumas horas e, para grande surpresa minha, o meu interlocutor convidou-me para dar aulas de português e história … e dirigir a Secção Liceal do Cubal, com a categoria de vice-reitor. Não me contive: “O senhor está a brincar comigo. Eu venho da boémia coimbrã e vou logo prá frente dum liceu”?!! O Dr. José Pecegueiro sossegou-me: “Eu sou psicólogo, e estou convencido que o senhor vai dar conta do recado”. E assim fui vice-reitor da Secção Liceal do Cubal entre Outubro de 1972 e 31 de Maio de 1974.


publicado por alvaro às 21:39
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